E daí era sábado e fazia sol. Eu alí parada, como eu sabia que estaria, ali parada, adivinhando de que lado você iria chegar. E lhe adivinhar era transmutar em espera, porque ninguém, todas aquelas pessoas que passavam, ninguém me via e eles riam e brincavam de sábado - todas as pessoas que passavam sem saber que eu apenas esperava por você que chegou - e engraçado, pois chegou de um canto que eu não imaginaria e ao mesmo tempo, quando lhe vi, soube, bem alí. E era sol e eram pessoas passando, bem alí, na consciência que seria assim. Eu, parada, simplesmente. Então era assim, eu ali, esperando... pessoas, bagagens e no saguão largo querendo ser praça, você apareceu e tudo sumiu. A calçada larga que sumiu no vão, que ficou longe de mim como uma brincadeira de roda, porque você também começou a sorrir, eu baixei o rosto - uma timidez esquisita essa que quase me faz lhe perder, assim perder de lhe ver acelerando o passo - porque para mim sorrias, as sandálias acarinhando o piso... porque sorrias, e era somente assim, flanando em um desinteresse pelo tudo que nem mesmo o tempo suportou. E foi aí que a praça voltou, o mundo em um esforço, voltou o som, as pessoas, todas elas que passavam, como despertas, todas que andavam pela calçada disfarçada de praça, como se seu passo - e foi então que exitastes e por segundos eu não soube o que fazer - você alí, só alí, maior do que sempre adivinhara. Era assim, tão maior que segurei dois tempos de vida quando, finalmente, seu segundo pôs fim. E foram dois tempos de vida que prendi em seu abraço e em seu beijo, para que na minha miudez simplesmente não desaparecesse. Cabelos caindo ao lado do rosto e eu querendo que o mundo fosse espelho, todas as paredes - e alí nem muitas paredes tinham - mas queria que todas fossem espelhos, para que me cercassem o seu reflexo pequeno, tão pequeno, querido assim, pequenininho o reflexo. Os reflexos que me cercariam, enleada eu seria entre todos os seus - e foram os seus cabelos caindo ao lado do rosto, seus cabelos que só poderiam lhe pertencer, assim, os fios que não eram longos, não, não eram longos, eram só fios que teimavam pelo pescoço, despertando vida - em um mundo grande demais para você que só sorria, uma calma que lhe servia como medida ou uma calma que lhe aproriara. E pensei que estava sendo egoísta em pegar toda ela para você, numa faísca que fez graça no momento enquanto lhe olhava, que seria só um isso assim: um subir para as cores, para as formas, um subir como o seu sorriso, um subir breve como os fios que lhe caiam na nuca, mas um subir tão querido, um subir que alí o mundo se convertia à sua forma. E por isso era bom. E por isso foi bom. Como o despertar para uma vida toda de felicidade.